Vinil na França gera mais receita que Youtube

O vinil na França não é apenas um hobby para os consumidores nostálgicos. Com quase 4 milhões de vinis vendidos no ano passado (2018), o vinil sozinho foi responsável por 1/5 do faturamento do mercado físico, ou seja, 48 milhões de euros, segundo o último relatório elaborado pelo Snep (Syndicat National de l’édition Phonographique), principal sindicato francês dos produtores de discos.

30% dos compradores têm menos de 30 anos, o que é um excelente sinal da jovialidade da mídia no País da Torre Eiffel.

Em 2018, cerca de 155.000 toca-discos foram vendidos, um número que aumentou 60% em relação a 2016 e “em cinco anos, as vendas de vinil aumentaram cinco vezes em termos de valor e volume”, afirmou Alexandre Lasch, diretor do Snep.

Essa boa saúde do vinil hoje leva a um paradoxo: os discos estão atualmente reportando mais dinheiro para a indústria musical francesa do que a gigante digital do YouTube e seus milhões de usuários. E a grande questão na França atual é:  como entender isso?

Todos os prognósticos existentes até bem pouco tempo atrás sobre discos de vinil diziam: Aquele disco de plástico? Isso é coisa de antigamente e já está em desuso. O vinil está morto e é peça de museu.

Em pleno 2018 os discos mostram que todos estes prognósticos estavam errados. E é muito estranho percebermos que grandes nomes da indústria fonográfica, jornalistas, pesquisadores e analistas econômicos erraram em praticamente 100% sobre suas percepções acerca do mercado de música. E olhe que são pessoas tarimbadas do mercado – são executivos de gravadoras, pessoas especializadas da mídia, economistas atentos à indústria fonográfica, ou seja, não são quaisquer uns – e hoje chegamos a uma produção recorde de discos e a abertura cada vez mais intensa de novas fábricas e o surgimento de novos consumidores.

Mas o que levou esse prognóstico errado?

Muitos destes “especialistas” não seguiam, não compreendiam ou não enxergavam o que era embrionário para a volta triunfante do vinil a patamares parecidos com os do final dos anos 80: as feiras de discos, sebos, DJs, colecionadores, os proprietários das poucas fábricas ainda existentes e os selos independentes. Estes 6 atores podem ser considerados como os pais da nova era do vinil e viviam numa espécie de submundo inalcançável pelos olhos destes profissionais. Depois deles veio um outro fator muito importante: a propaganda boca a boca – um verdadeiro trabalho de formiguinha onde um contava para outro a sua experiência com os discos e assim, mais pessoas passavam a ser, pelo menos, um curioso sobre os disquinhos.

Ou seja, a volta marcante e forte dos discos não veio de setores que representam grandes conglomerados da indústria da música, nem de campanhas da grande mídia. O retorno do vinil a patamares como os de hoje, nasceu de baixo para cima, de um movimento natural existentes nos nichos de mercado apontados acima.

Quando a indústria eletrônica de áudio percebeu este movimento ascendente dos discos, passou a investir em novos toca-discos e começou a alcançar boas cifras neste negócio. Neste mesmo tempo o marketing e o audiovisual iniciaram suas investidas utilizando a estética do vinil para várias propagandas e até mesmo em filmes, séries e novelas. Antes destes nossos tempos atuais nunca tivemos tantas cenas ou propagandas com toca-discos e discos compondo cenários variados nas telas de cinemas, TVs e nos vídeos de Internet, exceto quando retratavam os anos 70 e 80.

Mas, o mais estranho é que os analistas continuaram com os olhos nublados e não “enxergando” que o vinil veio para ficar. Exemplo disso foi o baixo investimento das grandes gravadoras nos discos de vinil. Porém, de 2 anos para cá (no máximo uns 3) esta economia começou a mudar. A Sony anunciou que investirá em uma fábrica própria no Japão; as majors estão lançando selos especializados em vinil e recolocando alguns de seus catálogos em reedições ou introduzindo no mercado lançamentos em LPs e outras atividades destes gêneros. As gigantes da indústria fonográfica, finalmente e tardiamente, começaram a acordar. E olhe que não foi por falta de pistas e, sinceramente, não sabemos se isso é para o bem ou para o mal…

Todavia, existem outros setores que ainda estão dormindo no ponto, principalmente a grande mídia. São poucos, aliás, pouquíssimos os canais que falam dos disquinhos pretos (ou coloridos) de plástico e quando falam anunciam como se fossem uma novidade de agora. A mídia que celebra o vinil é a mídia alternativa, são os blogs, redes sociais e sites que não compõem o espectro de grandes jornais, revistas e emissoras de TV – e falando em TV, quando existe algo sobre vinil é, na maioria das vezes, em canais fechados. O rádio, nem se fala, são pouquíssimos os programas que têm como estrela o vinil.

Entretanto, aos poucos o cenário está mudando. De 2015 para cá, quando começamos com nosso Universo do Vinil percebíamos muita gente ainda em dúvida sobre se o vinil iria vingar ou era uma “nuvem passageira”, mesmo quando mostrávamos todas as pistas e estatísticas que indicavam que o vinil estava cada vez mais enraizado na cultura e no mercado musical. Agora, nos parece que estamos indo para uma nova fase. Uma fase de solidificação e expansão – que não durará para sempre. Sabemos que o tamanho deste mercado é limitado e muito inferior ao do streaming e que o CD ainda tem muito gás pela frente. É, portanto, um mercado que tem um tamanho que, muito provavelmente, não excederá 20% de todo o mercado de música. Mas, é um bom tamanho e que poderá gerar alegrias, riquezas e muito entretenimento para todos nós, os amantes dos bolachões.

O vinil tem muito chão pela frente!

Fonte : Universo Do Vinil

https://universodovinil.com.br/portfolio/vinil-na-franca-gera-mais-receita-que-youtube/?fbclid=IwAR109UzEPCiODwtLPfSpmjQjx1GowJmeEoiUUwOxuuIAxC_G4eX0RWmQWPA